Era um grupo da APAE, não mais que 10, e a visita foi bem mais curta do que o inicialmente planejado.
Por alguns terem medo de andar de elevador, a professora achou melhor conduzirmos a turma pelas rampas até o segundo andar. Começamos, pois, já pelo momento mais figurativo, dramaticamente exposto – pelo fim, enfim.
Por alguns terem medo de andar de elevador, a professora achou melhor conduzirmos a turma pelas rampas até o segundo andar. Começamos, pois, já pelo momento mais figurativo, dramaticamente exposto – pelo fim, enfim.
Durante os primeiros vinte ou trinta minutos tudo correu relativamente bem, tendo-se em vista de que se tratava de pessoas com deficiência mental de moderada à grave.
A princípio, detive-me em colher suas impressões, as mais diversas, sobre tudo o que viam – porque, a bem da verdade, eu não sabia ao certo como adentrar com eles à problemática prosposta.
A princípio, detive-me em colher suas impressões, as mais diversas, sobre tudo o que viam – porque, a bem da verdade, eu não sabia ao certo como adentrar com eles à problemática prosposta.
Contudo, antes de chegarmos ao terceiro andar, uma das alunas começou a grunhir, batendo com a palma da mão na própria testa, e não tardou muito ela já estava chorando e gritando, desesperadamente pedindo aos professores para ir embora. Por mais que fizéssemos para acalmá-la, nada surtia efeito. A visita teve, então, que ser interrompida.
No caminho para o átrio, para onde os conduzia pelas rampas, um aluno me disse: “Não dá bola. Ela é boba, não sabe de nada. Eu gostei da pintura dele. O cara é bem na boa, viu? Ela é que é boba. O cara é bem na boa, profe.”
Só mais tarde é que fui perceber o conteúdo implícito do “consolo” que ele me dava. Ninguém em momento algum dissera que Iberê não era “na boa”. Por que, então, ele fazia tanta questão de assegurar-me disso?
No caminho para o átrio, para onde os conduzia pelas rampas, um aluno me disse: “Não dá bola. Ela é boba, não sabe de nada. Eu gostei da pintura dele. O cara é bem na boa, viu? Ela é que é boba. O cara é bem na boa, profe.”
Só mais tarde é que fui perceber o conteúdo implícito do “consolo” que ele me dava. Ninguém em momento algum dissera que Iberê não era “na boa”. Por que, então, ele fazia tanta questão de assegurar-me disso?
Claro estava que todos eles sentiram a densidade e a tensão da mensagem que sua pintura expressa e óbvio se punha que a recebiam tal qual é: soturna, desesperançada, agoniada.
A mulher-criança que se descontrolou não possuía os artifícios intelectuais, ou mesmo orgânicos, necessários para “filtrar” o que recebia e estabelecer um distanciamento, mas em compensação -como é de feitio da natureza; ou da divina providência, se assim o quiserem os que nela crêem - tinha em dobro o poder da supra-sensibilidade.
(siLêncio)
Diariamente compartilho com centenas de pessoas, todas inteligentes e saudáveis, salas de aula na universidade federal, lugares no transporte público, carrinhos de compras no supermercado, calçadas sujas no centro da cidade, mundos inteiros de vidro e cristal líquido.
Diariamente compartilho com centenas de pessoas, todas inteligentes e saudáveis, salas de aula na universidade federal, lugares no transporte público, carrinhos de compras no supermercado, calçadas sujas no centro da cidade, mundos inteiros de vidro e cristal líquido.
De repente percebo que a maioria dessas pessoas, no entanto, limita-se na vida a assistir o correr dos fatos: impassíveis como um rio que não flui, que não passa, que jamais revolve o lodo das profundezas, nunca se deixando sensibilizar.
Nas próprias salas de exposição, quantos são os que estancam a fruição estética com uma barreira abjeta da ordem do “isso é feio” e prosseguem perfeitamente incólumes, tão vazios e parvos quanto chegaram?
Nas próprias salas de exposição, quantos são os que estancam a fruição estética com uma barreira abjeta da ordem do “isso é feio” e prosseguem perfeitamente incólumes, tão vazios e parvos quanto chegaram?
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